Fim do Mundo

Há um pedaço de madeira caído no meio da estrada, frases escritas há muito tempo. Derrubado pela força do tempo, invisível de sua função, omitindo sua mensagem, porém resguardado de sua imposição. Num gesto de força e coragem levantaram-na e a colocaram novamente em seu devido lugar, em seguida prosseguimos o mesmo caminho, sem ao menos atentarmos ao aviso escrito naquela velha placa, a certeza de que nada nos deteria e a dúvida do que nos era alertado se mesclam, pode ser que o que estava escrito nem tenha tanta importância, mas mesmo assim ainda me encontro a pensar no que poderia prever ao ler seu conteúdo.

O caminho se tornou estreito em alguns pontos, enquanto caminhávamos um sentimento de observância vindo dos densos galhos de tantas árvores que moravam a beira da estrada reinava sobre nossa mente, não havia animais pelas redondezas, a fauna era escassa, a noite se anunciava de uma forma constante, a cerca de cinco horas que o sol ameaçava se pôr e até agora nada acontece, uma forte dor de cabeça me obriga a perder o animo pelo passeio, mas não da pra voltar sozinho, não agora.

De repente tudo escurece como se a luz tivesse sido apagada, não há estrelas no céu, a lua minguante e o brilho de marte clareiam os passos amedrontados, olhos atentos surgem nas arvores gigantescas, o barulho da noite na voz dos grilos e da coruja, morcegos rasantes em seus vôos ameaçam se bater em nós, o frio da noite e a necessidade de um abrigo acolhedor apressam a busca pela casa que já deveríamos ter encontrado.

Como se fosse do nada:

- É aqui?
- Acho que sim!
- Parece sem vida!
- Também estou achando!
- Pretende bater na porta?
- E por que não?
- Sei lá! - Mas acho que não deveríamos arriscar tanto! – Já são dez da noite e as pessoas poderão já estar dormindo!
- Bobagem, eles sabem que viríamos, devem estar até preocupados!
- Mas... não há luzes acesas!
- Acenderão quando chamarmos!
- Então vá na frente, prefiro esperar aqui de longe!
- Iremos juntos, nada de nos separarmos dessa vez!
- Putz, não vai da certo!
- Não fala assim, nós decidimos juntos que viríamos!
- Eu sei, mas estou com um mau pressentimento! – Como se não devêssemos arriscar tanto dessa vez!
- Já falei que é tudo bobagem sua, nada vai acontecer, confie em mim, eu te protejo de qualquer coisa, estamos juntos nisso, certo?
- Certo, mas mesmo assim ainda não me sinto bem em fazer isso!
- Entendo perfeitamente, mas precisamos acreditar no que pretendemos fazer, e depois, não temos nada a perder!
Após três toques uma voz alegre e carismática grita do outro lado da porta:
- Espere um segundo, já estou indo!

Mãos tremulas, coração acalmado pela certeza de ter alguém, os segundos não exatos, o tempo breve, porém longo devido à ansiedade, um pulsar acelerado no peito, o cansaço pedindo um fim, as pernas já não pensam mais em caminhar tudo de novo, chegamos aqui e ao pensar que o caminho possa ser feito outras vezes nos trás um sentimento de exaustão, não nos sobra coragem nem forças para repeti-lo por enquanto.

Nesse intervalo de erupções mentais uma luz é acesa de cada vez pela casa, como se a própria casa acordasse aos poucos, meio sonolenta e devagar, a ultima luz foi a da varanda que estávamos, em seguida a porta rangendo deu passagem a uma senhora bela, cabelos grisalhos, rugas, idade avançada, porém feliz, disposta e simples. A primeira impressão que tive era de estar frente a frente com a sabedoria, aqueles olhos exalavam carinho, aconchego e amparo, finalmente a certeza de estarmos no lugar certo aliviou nossas preocupações.

- Pois não o que desejam?
- Boa noite, viemos em nome de seu filho, ele nos disse que aqui seriamos bem recebidos!
- Se meu filho mandou vocês, então sejam bem vindos, podem entrar! Só não olhem a bagunça!

Cômodos iluminados, um cheiro de lavanda vindo de algum incenso já apagado, mobílias antigas, porém belas, enfeitavam toda a casa numa harmonia suave, o calor aconchegante e a paz daquele lugar nos davam a melhor recepção que poderíamos imaginar.
Fotos espalhadas pelas paredes se misturavam com um papel de parede desbotado, fotos antigas e vazias, alguma coisa faltava nas imagens, mas não dava pra perceber o porquê dessa impressão.

- Sintam-se a vontade, mostrarei o quarto que vocês passarão a noite!
- Muito obrigado agradecemos pela sua atenção!
- Vocês conheceram meu filho?
- Sim senhora, seu filho nos falava muito bem da senhora!
- Pena não poder vê-lo mais!
- Sinto muito, mas tenho certeza que ele a amava infinitamente!
- Bom, vamos lá, já é tarde e vocês precisam dormir, amanhã teremos um belo e longo dia pela frente!
- Com toda certeza, não vejo a hora de tirar meus sapatos e tomar um banho frio!
- Venham por aqui!
(...)

A luz não se fixava em intensidade, tínhamos a leve e macabra impressão de que a qualquer momento um curto-circuito incendiaria todos os cômodos, preferimos apaga-la e ascender algumas velas, a cama rangia irritantemente, a decoração meio tímida acolhia nosso cansaço com muita paz, a parede floral, um criado-mudo antigo sustentava alguns livros sobre ocultismo, a impressão de estarmos sendo observados perdurava noite adentro, por mais que quisesse acreditar em algo assombroso o impacto da realidade e o local dissipavam essa insegurança de minha cabeça.

Alguém bate na porta:

- O jantar está na mesa, não demorem!
- Muito obrigado, já estamos descendo!

Tomamos um banho, ou melhor, o melhor banho de toda uma vida, a necessidade fez um simples banho frio se tornar em algo sublime e prazeroso.

- De quem era aquele quarto que nós iremos dormir?
Perguntei com um ar de curiosidade inegável.
- Era o quarto de hospedes, a muito tempo que ninguém dormia nele!
- Não parece que está a muito tempo esquecido, a sensação que sinto dentro dele é que estou tomando o lugar de alguém.
- Como assim?
Perguntou-me Alice assustada!
- Ah! Eu posso te contar uma história?
Perguntou-nos a senhora que se chamava Elisa!

Afirmamos com a cabeça que sim, mas no fundo havia um grito entalado querendo explodir e dizer: - Pelo amor de Deus não fale mais nada!

A fome passou, lógico, quem comeria depois de tanto suspense?

E assim nos foi contada uma bela historia:

- A cerca de 20 anos morava nessas redondezas um senhor chamado Manoel. Manoel era um senhor prestativo, zeloso e beberrão, bebia até tantas da noite, não tinha mulher, pois a que tinha foi-se embora devido a seus exageros em relação ao álcool, a única filha de Manoel havia falecido aos 13 anos em decorrência da peste. A vida de manezinho, como era conhecido por aqui, era sobretudo passiva, todos gostavam muito dele, ajudava todo mundo no que fosse preciso e cabível, sua reputação de homem marcado pela dor ia longe, pois sua historia começa muito antes de Manoel ter vindo morar no “Fim do Mundo”.
(...)

Era verão e o calor estava escaldante, os termômetros marcavam 30° C, o colégio que Manoel estudava ficava longe de casa, era preciso tomar dois ônibus e praticamente viajar durante uma hora á deriva, no balanço dos amortecedores. Manoel apesar de parecer sério era acima de tudo irrequieto, impaciente, teimoso, tinha uma cabeça nova agora, marcada pela adolescência, em casa era um jovem amado e apesar de suas revoltas dignas da idade, tinha pais adoráveis, que se esforçavam ao máximo para compreendê-lo e ama-lo. Em seu colégio que estudava a cerca de um ano, havia feito muitas amizades, andava com uma turma meio que digamos, da barra pesada, não faziam mal a ninguém, mas todavia, não assistiam aula, curtiam suas tardes e suas loucuras como quem nunca vai envelhecer, eram muitos no bando, entre homens e mulheres se encontravam também pessoas de diferentes etnias, diferentes pensamentos, diferentes condições físicas e sociais, mas estavam juntos pelo desejo de aproveitarem a liberdade de estarem longe de casa e longe dos olhares maternos e paternos.

Manoel seguiu seus estudos na calmaria da vida, sem muito esforço para não ficar louco de tanto estudar e sem muito desleixo, para não ter de pedir esmolas no futuro, gostava das amizades, algumas só mantinha por interesse, como todos os seres humanos que habitam a face da terra, mesmo que o interesse seja apenas para se sentir bem. Conhecia o pipoqueiro, o bibliotecário, o porteiro, era bem vistos por alguns professores e ignorado por outros que nem notavam sua presença, falava com quem o conhecia e quem não o conhecia acabava conhecendo, não se incomodava em incomodar os outros, não fazia por mal, era apenas seu jeito banal de se fazer notado. Usava adereços exóticos, era movido pelo gosto punk de ser, sua aparência mal cuidada era normal em vista a tantas diversidades encontradas num colégio tão grande.

Dentro de seu circulo de amizade, se encaixavam quase todas as pessoas, exceto aquelas ditas como banais, como por exemplo, um grupo de jovens, metidos a porra nenhuma, que se achavam os populares do lugar, mas dentro desse enorme circulo havia uma pessoa em especial, uma jovem chamada Clara.

Clara entre todas as outras não tinha nada de especial, a não ser seu belo e simples sorriso, seu mistério, sua precisão no olhar, sua beleza, diga-se de passagem, não era igual a mais linda Vênus, nem tampouco uma Afrodite, mas para Manoel era a mais bela entre todas as outras. Clara exalava paz, conforto e carinho, conversar com clara era para Manoel o momento mais singelo e necessário possível, clara tinha aquele dom cativante, acolhia as dores de Manoel sem nem sequer saber delas, era até mesmo o motivo não único, mas principal que tirava Manoel de dentro de qualquer aula, chata ou não.

Clara sabia que Manoel sentia algo mais por ela, ele já havia lhe confessado seu interesse, mas Manoel era brincalhão demais, por vezes chegava até exagerar em certas brincadeiras e talvez isso e outros fatores desconhecidos os mantiveram numa superficial relação de afeto, nada mais passava disso.

Nem Clara e nem Manoel se conheciam a fundo, a vida de ambos era desconhecida entre si, havia muitas coisas a descobrirem e o tempo prometia dar conta disso tudo.
Os dias se passaram, as séries foram avançando uma a uma, Clara era estudiosa, porém tinha dificuldades em algumas matérias, Manoel odiava estudar, mas entendia certos assuntos com mais facilidade, viveram seus dias de estudantes com uma certa distancia, uma distancia pequena, se gostavam muito, mas nunca se deram a oportunidade de um relacionamento maior, o fato de serem amigos bastavam à aquela época.
(...)

- Bom! – Vamos dormir agora! – Amanhã agente termina!
-Ah não! – Estava tão bom dona Elisa!
Suplicou Alice.
- Nem estamos tão cansados assim!
Tentei êxito, mas aquela senhora era teimosa, percebemos que não poderíamos convencê-la e só nos restava a paciência de esperar o outro dia.

Havia um longo corredor, que dava-nos passagem até o quarto de hóspedes, percorre-lo não nos seria tão confortável, a iluminação rara vinda por detrás e o final obscuro que se anunciava a nossa frente, como se a qualquer momento algo fosse sair da escuridão, não dava para negar a tensão, mas atravessamos definitivamente aquele estranho corredor, que apelidamos de corredor fantasma.

A cama rangia bastante, mas remediamos com algumas penitencias, aquele quarto já não era tão excitante como imaginávamos e decidimos dormir um pouco mais cedo.

(toc toc)!!!

- Bom dia! – O Café-da-manhã estará pronto daqui a 30 minutos, se esfriar não será tão saboroso.

Certamente dona Elisa não ouviu nossa resposta e percebeu a porta aberta e que o quarto estava vazio, Alice acordou cedo, cessou meu sono pelo meio, queria sair para caminhar um pouco, meu mau humor me deixou incapacitado de gerar opiniões.

Chegamos na hora exata, o cheiro do café se espalhava pelos arredores da pequena fazenda, a noite muitas coisas deixaram de serem vistas, as arvores eram belas e de tamanhos Gulliverianos, os animais agora reinam, entre patos e galinhas havia um grande galo, provavelmente foi quem acordou Alice, imaginei-o numa panela dourada, banhado em azeite, umedecido com um belo vinho do sul da Itália, estranhei a ausência de cachorros, numa fazenda, mesmo de pequeno porte, a ausência de cachorros é algo atípico. No pasto dava pra ver um pequeno rebanho bovino embaixo de uma mangueira grande e extensa.

A fome pediu preferência em meio ao que poderíamos explorar mais tarde e decidimos entrar.
Dona Elisa nos falou das redondezas, do riacho que ficava mais a baixo, dos vizinhos distantes, aonde podemos ir e de onde podemos voltar, falou também que precisava de uma ajudinha para alimentar as galinhas, percebi nessa hora que pato também poderia ser chamado de galinha, me dispus a alimenta-los com a simples condição de que ela os contasse uma pequena parte da historia quando eu acabasse minha tarefa. Ela concordou dando um leve sorriso e me ofertando um pãozinho de mel.

Terminado minha árdua tarefa, decidi tomar um rápido banho, a caminhada me fez suar e um banho frio irá me deixar mais leve.

Ela havia se sentado na sala, ligou o som num volume muito baixo, mas que dava para ouvir com clareza o som, sentei numas almofadas que estavam jogadas pelo tapete e olhei em direção ao corredor procurando por Alice.

- Dormiram bem à noite?
- Sim senhora, como anjos!

Assim que Alice chegou dona Elisa começou a contar:

- Manoel concluiu os estudos no colégio, Clara ainda tinha um ano para estudar e a ausência de Manoel os separaram. Cada um seguiu seu caminho. Há quem diga que eles ainda se falavam de vez em quando, ou tenham se visto durante esse período de distancias, mas o tempo percorreria a linha das horas e traria um novo começo, ameaçando um final feliz.

Numa noite de um dia qualquer o encontro previsto e requerido aconteceu, não encontraram nesse dia somente um ao outro, mas sim as razões que os levaram até ali, decidiram viver algo novo, algo que entre eles nunca se passou.

(...)

Foram seis anos de plena convivência, Manoel desprendia de si todo o amor que guardava em seu peito, clara se entregava aos encantos de uma relação perfeita, a vida era bela afinal.

De repente algo novo aconteceu e Manoel não soube explicar, algo havia acontecido com o amor de Clara, os dias passaram a serem longos, o tempo já não passava tão rápido, o brilho que Clara trazia em seus olhos havia se dissipado, Manoel sentia que alguma coisa estava por acontecer.

Numa manhã de domingo Manoel levantou-se cedo e resolveu preparar o café da manha com muita dedicação, depositava nesta tarefa todo seu afeto, queria agradar a Clara, queria reverter algo pronunciado, mas Clara estava cheia de tudo, não suportava mais a presença de seu companheiro, não se sabe ao certo o que motivou esse sentimento em Clara, pois há poucos dias atrás ela própria se mostrava apaixonado por ele.

Clara levantou-se e não suportando ver Manoel com aquela cara de pastel tentando agradá-la, decidiu ir embora, dessa vez para sempre.

O teto afundava sobre sua cabeça, Manoel quis chão para se segurar e não achou, o porto seguro estava naufragando junto com as embarcações que nele estavam amarradas, tentou organizar as idéias, decidiu ter calma e quando percebeu o que estava acontecendo, caiu em si e na realidade.

Não se sabe ao certo o que aconteceu naquele dia com Manuel, viu sua amada partir e ele ficar, quis ser forte, mas não havia razões para ser.

Perder Clara era algo inimaginável, nunca passou em sua cabeça viver longe de quem ele amava e decidiu deixá-la ir, decidiu não resistir, afinal Clara tinha o direito de decidir sobre quem amar.

Manoel se trancou dentro de si mesmo, era visto pelos cantos de casa, não fazia mais compras, não brincava com os cães, esqueceu da cerveja aos domingos, das canções antigas, esqueceu de Clara, esqueceu de sonhar, esqueceu de viver.

O tempo não perdoa quem dele se esquece e passou por Manoel levando dele muito mais do que ele possuía.

Antes que Manoel morresse no tédio de sua vida terrena, foi decidido transferi-lo para um lugar mais calmo, longe das lembranças terrenas. Manoel adorava a paz do interior, adorava animais, passou a adorar a solidão e uma pequena fazenda foi comprada em seu nome.

Manoel não parecia estar satisfeito em seu novo lar, mas o tempo se encarregou de amenizar as feridas do passado, fazendo desse novo lugar um refugio para suas dores. Esqueceu de Clara como quem se esquece de andar de bicicleta e passou a cuidar das coisas ao seu redor.

Como toda fazenda tem seu nome, Manoel decidiu batizar a sua, a chamou de “Fim do Mundo”, colocou uma bela placa bem na entrada com o nome escrito em letras grandes, passou a prosseguir finalmente o seu caminho.

(...)

- Já é o suficiente por enquanto, continuo a historia depois do jantar.
- Dona Elisa?
- Sim!
- Manoel morava nesta casa?
Perguntei com muita curiosidade.
- Morava sim!
- E o que aconteceu com ele?
Indagou Alice.
- Vocês saberão no desenrolar da historia.

(...)

O dia estava perfeitamente lindo, as cores, o sons, a natureza se mostrava em face de seus milagres diários.

Dona Elisa foi cuidar das tarefas necessárias para manutenção do pequeno sitio, enquanto Alice e eu saímos para explorar um pouco mais daquele lugar.

Decidimos analisar o conteúdo daquela placa que vimos na entrada e constatamos que era a mesma placa que dona Elisa se referia na historia, de fato Manuel realmente existira, mas ainda faltava muita coisa para darmos um fim a tantas interrogações.

Finalmente Manoel enlouquecera? O que aconteceu com Clara? Qual o motivo que levou Clara a decidir pelo fim de um relacionamento tão belo? Pelo que sabemos Manuel não era uma má pessoa, e acima de tudo ele a amava.

Atentamos para um novo fato, a fazenda apesar de pequena possuía dimensões notáveis, havia hortaliças e pomares, animais que precisavam de muito cuidado, como uma senhora poderia cuidar de tudo sozinha?

Enquanto ajudava dona Elisa no concerto da cerca que foi danificada por uma vaca que tentou transpô-la, ela me falou que não era necessário eu esperar tanto pelo fim da historia, à noite ela nos contaria todo o final e assim cessariam todas as nossas duvidas.

Na hora do almoço nos foi servido um belo frango, suspeitei do galo que acordara Alice, mas pude vê-lo no terreiro e percebi que ainda não havia chegado a sua hora.

À tarde fomos até o riacho que ficava nos fundos da propriedade, voltamos no final da tarde e encontramos dona Elisa sentada na varanda admirando em silencio o por do sol.

- Tem bolo na cozinha, se estiverem com fome sintam-se servidos.
- A senhora ler pensamentos?
Perguntei brincando.

Um maravilhoso bolo de fubá estava em cima da mesa, confesso que nunca em toda a minha vida, havia comido um bolo tão saboroso.

Percebi que na frente da casa tinha uns pedaços de madeira que seriam usados para fogueira, dona Elisa havia chamado alguns vizinhos para cearem junto a nós.

Finalmente a noite chegou e junto com ela foram chegando um a um os vizinhos que moravam nas proximidades, pessoas alegres, divertidas, acolhedoras, típicas de um vilarejo modesto, conversas engraçadas, piadas fora de hora, fizeram nossa noite espetacular. Após o jantar nos despedimos de todos os convidados e finalmente quando o ultimo havia ido embora dona Elisa ajeitou a fogueira para que a mesma continuasse a oferecer calor por mais tempo e perguntou se queríamos ouvir o resto historia.

- Eu falei que Manoel tocava violão?
- Não!
Respondi de imediato.
- Pois é, ele não era um exímio tocador, mas se perdia em pensamentos quando tocava, era a melhor forma que ele tinha de esquecer de si mesmo. Ele por sinal gostava muito de uma musica em especial, se me permitem posso cantar um pouco dela.
- Claro que sim, ficaremos honrados com isso!
- Bom, acho que começava assim:

“Se um dia fores embora
Te amarei bem mais do que esta hora
Me lembrarei de tudo que eu não disse
E de quando havia tudo que existe
Quando choramos abraçados
E caminhamos lado a lado
Por favor amor me acredite
Não há palavras para explicar o que eu sinto
Mesmo que tenhamos planejado
Um caminho diferente
Tenho mais do que eu preciso
Estar contigo é o bastante
Certas coisas de todo dia
Nos trazem a alegria
De caminharmos juntos lado a lado por amor
E quando eu for embora
Não, não chore por mim.” (Renato Russo)


Ovacionamos dona Elisa com aplausos, nunca havíamos ouvido uma canção tão linda.

Ela continuou:

- Manoel depois que veio morar aqui decidiu recomeçar sua vida, trabalhava arduamente nas tarefas necessárias da fazenda e ainda tinha tempo para ajudar aos outros.

Viveu solitário durante 4 anos, até que conheceu Helena.

Helena por sua vez era uma mulher de hábitos urbanos, conheceu Manoel num passeio que fez por essas regiões, ele a ajudou com o pneu de seu carro que estava furado bem na entrada da fazenda, ela se apaixonou de imediato pela simplicidade de Manoel e pela primeira vez depois de Clara, Manoel decidiu se entregar ao amor.

Mas ambos não se conheciam direito e a relação foi ficando estreita conforme o tempo passava, Helena engravidou, Manoel não era mais o mesmo, as complicações de um relacionamento tão estranho o tornava vulnerável aos vícios, ao estresse, em fim Manoel estava no alcoolismo.

Judite nasceu saudável, era bela como a mãe, Manoel passou a amar aquela criatura com todas as suas forças, Judite trouxe o brilho aos olhos cansados do pai, trouxe vida a fazenda, trouxe paz ao coração do casal e finalmente passaram a ter uma vida harmoniosa.

Em 1992 houve um surto de contaminação em todo o país, a doença era inofensiva para alguns, mas quem fosse escolhido pela morte seria de imediato tombado pelo seu poder, Helena adoeceu juntamente com Manoel, ambos se preocupavam muito com Judite que até então não apresentava os sintomas da doença, mas quando os pais apresentavam melhoras veio o que eles mais temiam, Judite passou a apresentar os sintomas da doença e de uma forma mais intensa, foram dias de desespero para ambos, até que ela não resistiu.

O brilho se apagou de uma vez por todas, Helena foi embora, Manoel voltava a beber, a fazenda ruiu, os dias ficaram cinzas e Manoel decidiu não mais viver.

Os últimos dias de Manoel foram velados por todos os amigos mais próximos, ele não tinha parentes conhecidos, ninguém sabia qual era sua origem.

Quando numa manhã de um dia qualquer, Manoel não pode se levantar, estava debilitado, não era constatada nenhuma doença, alguns diziam que era mal de existir, ele apenas não tinha vontade de existir.

De repente surge uma figura na porteira, era uma mulher de estatura média, cabelos curtos, olhos castanhos, bela, serena, chegou até nós e perguntou por ele, a levamos até o quarto que Manoel estava e que por sinal hoje é o quarto de hóspedes, nos disse que queria ficar a sós, demorou muito tempo, Manoel apresentou uma repentina melhora, seus olhos se encheram de lágrimas, a mulher saiu em seguida, deixando Manoel muito feliz.

Não se sabe ao certo qual o motivo de Clara e Manoel nao estarem juntos, esse é um segredo que Manoel levou ao túmulo, ou talvez nem ele mesmo conseguiria entender.

Manoel viveu mais 2 anos depois da tal visita e veio a falecer sem motivo algum, apenas dormiu e não mais acordou.

- E quem era a tal mulher?
Perguntei aflito.
- Ainda não sabes?
Indagou-me dona Elisa e em seguida falou.
- Era a única mulher que Manoel realmente amou!


(FIM)




(jefferson dos santos)
Escrevi meu melhor verso,
Trouxe de dentro de mim minhas melhores palavras,
Deveria ter paciência para guardá-las,
Por mais que queira explodir,
Devo perceber o mundo ao meu redor,
Meus estilhaços não devem ferir quem me cerca.




(jefferson dos santos)
Durante certo tempo, um tempo qualquer sem delongas, um tempo voraz, uma noite acintosa, era preciso fraquejar ao pensar na loucura.

Enquanto louco me achei lúcido, e lúcido me achei perdido.


Caminhando pelos cantos daquela areia movediça, enquanto sugava-me a fé, pude avistar caiz distantes, reconheci meu corpo pútrido lançado em tantas ondas, absorvido por tantos grilhões, velado por tantos ideais.


Já não quero mais pensar, por hoje já não preciso do meu corpo ao meu lado, busco a profundidade da mente, busco responder agressivamente ao silencio e em seguida me silenciar, me resguardar, proteger-me de quem me aceita, violar todos as regras em busca do sentido real que nunca deixei de acreditar, tenho pavor de pensar, penso em nunca mais pensar, em nunca mais escrever, em nunca mais desabafar em linhas ininterruptas de folhas em branco, riscadas por cores nada cintilantes, apenas quero usar o fosco para demonstrar minha maior alegria, para rebuscar minha maior tristeza, desperdiçar meu tempo fazendo do meu tédio meu remédio, meu vicio inconcebível, minha sede inafiançável, meu valor incontestável, meu querer violado, minha cabeça pede descanso em meio ao mundo cruel...






(jeffeson dos santos)

O que poderia eu ser se eu nada sei quem eu sou?

O que dizer se é mais fácil correr do eu, se o eu nunca fez por querer ser sempre eu?

Se eu não me quiser, nada posso fazer para que o eu me queira.

Eu até entendo, eu ate aceito, mas ao mesmo tempo nem entendo, nem concordo.

Ah! E daí se querem buscar respostas onde nem eu mesmo sei achar.

Não esperem que eu sinta saudades, nem ao menos seja vivido por desilusões.

Tenho um braço guerreiro que já não sabe o que é vencer.



Fazer o que se ela quis assim.

Que nada sei é a única certeza que aceito.

E a vida que outrora busquei,

Será a vida que sempre me leva de volta pro mesmo ponto de partida.

Desculpa por tentar esquecer.

Desculpa por ser mais forte que os próprios golpes.

Perdão se meu corpo se desfalece por pensar em tudo que falei um dia.

Realmente o único perdão que preciso acreditar, é o perdão que não pude reconsiderar.

Mágoas?
Tristeza?
Vida?
Desejo?
Palavras?
Nada?
Causos?
Sinceridade?
Respeito?
Crença?
Paixão?
Lucidez?
Liberdade...

Eu que tentei me libertar, aceito que se libertem de mim.

A minha bagagem já estava arrumada, minhas trouxas estavam dobradas, meu abajur de sonhos, que há muito já citei, continua no mesmo lugar, esquecido como tantos outros suspiros de minha curta vida medíocre.

Eu conheço meu sorriso, reconheço meu querer, vou correr pra longe por uns tempos do muito que há de você em mim, mas nada posso garantir do que minha memória é incapaz de apagar.









(Jefferson dos santos)
Queria muito não sentir o que sinto, medo.

Queria muito esquecer o que preciso, você.

Estou tentando me libertar das amarras, vida.

Estou sem rumo, sem anseio, sem esperança, perdido numa redoma de vidro e sem espectadores, só dores.

O tolo que sou e que nem sabe usar as palavras, pede socorro, meu corpo sofre de angustia, meus olhos eu preciso arrancá-los, minha boca eu preciso perdê-la, minhas mãos eu preciso amputá-las, eu preciso e não consigo aceitar minha precisão, eu quero e não consigo querer com exatidão.

Meu coração me mostrou o quanto sou frágil, o quanto sou mortal, o quanto posso sofrer ao fazer alguém sofrer.

Já não sei ao certo o que me guia, suplico aos céus e nada ouço, suplico a deus e nada vejo, suplico ao tudo e nada mereço.

Queria um remédio que sanasse todas as minhas dores, todos os meus medos, todos as minhas insanidades, todo o meu penar.

Desculpa por não ter sumido dessa vez, mas preciso gritar mesmo que seja através de letras.
Preciso de tanta coisa, preciso me evitar, preciso me eliminar, me subtrair, me incinerar, me abstrair.

Minha alma já não tem mais valor algum, minha salvação eu mandei ir embora, meu sonho eu joguei fora e nem sei como eu o deixei partir.




(jefferson dos santos)

Aracaju 11/11/09

Olá Mathias! Escrevo-te desta vez no intuito simplório de explanar meu sentido e minhas concepções, espero que tenhas um tempo breve para desperdiçá-lo lendo esta minha carta, este meu desabafo, esta minha inquietação.

Gostaria antes de tudo de avisar que por aqui as coisas estão acontecendo na aspereza contínua da vida, nada acontece nesta cidade, nada surgi nestes horizontes, está sendo mais fácil perder um dia de sol do que ganhar um dia de chuva, sem contar a bagunça que se encontra em meu mundo, pela casa se vê roupas, livros, fotos, cartas, presentes, canetas, papeis, brinquedos velhos, lembranças antigas, e tantos outros pelo chão, estou tentando me levantar dessa bagunça e procurar um canto melhor, minhas tardes continuam a exalar um aroma de saudade, um imenso vazio reina triunfante por sobre meus dias.

Ultimamente venho sentindo algumas dores fortes, não sei ao certo de onde vem estas dores, mas sinto que nenhum remédio soluciona, faço uso indiscriminado de muitas substancias e nenhuma me trás conforto ou paz.

Sinto meu rosto cadavérico, minha alma assustada, meu corpo moribundo, meu sorriso borrado, minha ansiedade estampada, meus olhos cansados, minhas roupas manchadas...

Tenho motivos suficientes para me jogar no meio da confusão, dar um safanão no primeiro em minha frente, dar uma rasteira no outro ao lado, um empurrão no mais baixo, um tapa escondido no mais alto, um abraço num amigo antigo que nunca mais tinha visto, um pisão naquele mané da 4ª série, um dedo pra professora chata, um soco no guarda folgado, um sorriso pra quem devolve outros, acenar pra quem conheço, ignorar quem me desconhece, amar a quem não me esquece, ajudar a quem mais crer na prece e enfeitar a rua ladrilhada para o meu amor passar.

Lembra da foto que caiu no lago?

Pois é, mantive-a intacta depois de tudo que passou por mim, até evito fita-la, afim de nunca mais rever os traços de minha idade e da minha solidão.

Por esta oportunidade de esclarecer minhas dores e desabafa-las te agradecerei infinitamente, é óbvio que possuis uma notável paciência e que continues assim, mudo e sem razão.





P.S. Avisa a todos aí que não sinto tantas saudades, o que realmente sinto é um abismo de vazio e medo por não vê-los ao meu lado nos momentos que mais preciso.





Ass.: Jefferson dos santos

Cordel da Despedida

Das dores que já senti
Nenhuma me dói tanto
Essa me aperta a alma
Me faz viver em prantos
Dor forte e traiçoeira
Dor do desencanto.

Acredito na esperança
Boto fé na divindade
Já falei ate com Deus
Esse me falou de verdade
Mas agora me pergunto
Onde está a felicidade?

A força dos meus dias
Nunca mais quer voltar
Dizem que foi embora
Que deixou de me amar
Dizem até que mora longe
Já não pode me encontrar.

Foi na noite do dia 3
O peso da vida a cair
Meu amor quis ir embora
Meu amor que quis partir
Meu coração em pedaços
Um sonho que ja perdi.

Não mais verei teus olhos
Nem teus lábios beijarei
O sorriso fecha a porta
Vou perder quem eu amei
De todos os pecados
Esse é o maior que já pequei.

Se ao teu lado fui feliz
Do meu lado me ajeito
Sem você vou prosseguir
Esse vazio dentro do peito
Minha alma pede paz
Vou esquecer dos meus conceitos

Nada mais terá sentido
Desse tudo que sonhei
Vou mudar todos os planos
Esquecer-te eu não irei
Refazer minhas esperanças
Começar donde parei

Dedicarei este poema
Aos versos que já não fiz
Aos textos que não farei
As prosas que já escrevi
A você que me esquece
A mim que te perdi

Queria eu ser a verdade
Nem que seja por um só dia
Pra te provar o que sinto
Pra te trazer minha alegria
Pra aquecê-la em meus braços
Dissipar minha agonia

Que deus seja louvado
Pela força da oração
E que ele me explique
Porque essa confusão
Estou querendo ouvir dele
Qual será sua opinião
E mesmo que não me ouça
Ou despreze meu coração
Terá que me mostrar
Uma justa explicação
Não me importo com a demora
Se forem dias de aflição
Só espero que ele diga
Qual será minha punição
Por amar quem me amava
E perde-la sem razão.
Que esta droga de doutrina
Caia vil pelo chão.





(Jefferson dos santos)
Deixaremos para trás coisas sem nenhuma importância, arquivaremos velhos papeis que se desgastaram principalmente por culpa minha, eu acho, irei deletar para sempre cada faísca desse fogo que se apagou em você, processarei pelas perdas todos os envolvidos e encerrarei minha trajetória como quem encerra uma vida em cinco segundos.
Tirarei essa idéia tola de que o passado existiu da minha concepção, amarrotarei minhas camisas novamente, tentarei voltar ao que era, tentarei me livrar do aperto, desatarei o nó da garganta, complicaria ainda mais se continuasse a dizer o que você não quer mais ouvir.

A partir deste parágrafo nada mais deverá ser levado a sério.

Os efeitos estão aparecendo aos poucos, a percepção do mundo é diferente agora, o equilíbrio está prejudicado, há movimentos em todos os lados, não consigo me concentrar, há um mar de sal em frente e uma montanha de ventos atrás, nem me lembro mais do que pretendi esquecer, ainda está só começando a já me sinto possuído totalmente por este poder sobrenatural que veio de qualquer lugar que não me interessa saber nesse momento, outros estão alcançando o êxtase da felicidade e não conseguem parar de rir, o desespero existe, não podemos negar este fato, mas é insignificante se comparado com a euforia que acelera os batimentos coronários, sinto poder voar agora, vejo asas crescerem, não há mais uma definição de cor pro mundo, pelo que vejo nem cinza existe nesse dilema, só cores vivas, psicodélicas seria a palavra exata, vontade de pular de cima da casa só para testar as asas, não querem me deixar subir lá em cima, ficarei quieto, deixarei de gastar minha loucura dessa forma, agora a fome bate e os pratos parecem discos voadores a passar pela minha cabeça, me esconderei embaixo da mesa, aqui eles não me machucarão, temo que haja vida dentro da porcelana, partículas dominadoras que penetram pelo ouvido e dominam meu cérebro, alguém caiu na piscina e me deu a mesma idéia, agora tentarei ser um peixe sem chamar atenção do tubarão, o tubarão tentou me devorar naquele dia que pisei numa alga na praia, me tornei um deus, sinto que posso realizar todos os meus desejos, pelo menos a porta se abriu quando eu quis, agora falta testar isso em você, mas não devo fazer isso, me lembrei que deveria te esquecer, tentarei te esquecer, vejo que meu poder falhou, droga deus não pode me ajudar... Mais que droga é essa? Fazem oito horas que estamos presos nesse paradigma e não tenho nenhuma esperança que isso irá passar logo, putz deveria ter tomado menos, a quantidade foi proporcional a dor, a necessidade de enlouquecer, a quantidade foi mensurada por um louco que queria ficar louco, então não devo reclamar, mas a hora de voltar já passou, se me ligarem vai rolar sujeira, aquela arvore talvez possa me ajudar, ela quer me dizer algo, o som do silencio é profundo, a falta de não ter o que fazer pode talvez ser melhor que viver tendo o que fazer em vão.

De ilusão meu corpo não sobreviveria.


(Jefferson dos santos)
Um ultimo mergulho e pronto, me sinto melhor da tristeza, nem me vejo por entre meus pensamentos, esqueci que devia lembrar por mais tempo, esqueci que devo esquecer, escondi minhas pegadas embaixo desse sistema, dessa hipocrisia, desta droga de ilusão.

O mar está mais forte agora, as ondas me cobrem e me levam a deriva, como dizia aquele senhor: - Deixa o mar te levar, o mar é seu amigo!

Esses meus motivos, aquelas minhas idéias, aquelas minhas loucuras, já não tenho mais o mesmo vigor para voltar a cometê-las, no entanto é possível assinalar o contorno do vento e evitar um furacão maior.

Eu que não sou de palavrões, tenho um arsenal deles aqui guardado, tenho munição para três cruzadas, cinco guerras mundiais e nove conflitos territoriais, mas num entanto não há necessidade alguma de disparar todo esse poderio, tão insignificante quanto quem irá proferi-los, para as paredes do meu quarto.

Comprei passagens de ida para o final do arco-íris, estou vendendo pela metade do preço para quem estiver interessado, motivo? Não os usarei, não agora.

Boa noite!