“SEUS VESTIGIOS EM MIM”

Pensar no que devo correr necessariamente em paralelo ao lado escuro real e desorientado em que me encontro, chega ao resto do pouco nada que tenho escondido dentro do tudo que não mais possuo além de minha capacidade mínima de desenvolver a melhor forma complexa de te falar. Desculpe minha confusão fingindo confuso, minha guerra sem armas contra minha imagem, mas o que preciso recitar vai ser mal ou bem feito dessa próxima e rara maneira.
Adoraria ser notado tudo que digo, ainda mais ser negado tudo que não quero e ofertado tudo que respiro. Sei sem saber do que, que a poucos metros do tamanho da minha fala existem muitos dias dividindo o obstáculo intransponível da realidade e da fatalidade. A realidade é o imprevisto que guardo inerte no avesso de mim mesmo, a fatalidade é o incremento do pouco fato que faço no caso em que piso agora.
Dar-te-ia de tudo um pedaço se fosse cobrado, roubar-lhe-ia do muito e te ofertava o dobro do troco que me passarem, dir-lhe-ia coisas que em descaso algum pude falar com ânsia, assistir-lhe-ia passar ao meu lado e me levar junto a outros lugares helicoidais, ensinar-lhe-ia tudo que não sei e desprendia do meio termo quase a metade da certeza de não se saber infeliz ser, cobrar-lhe-ia a toda tarde um complemento do cobrado pela manhã e o saldo do requerido a noite, ressuscitar-se-ia minha pobre e cadavérica alma a cada ponto sobrenatural que acreditasse ser um sonho por estar remando sem velas no teu mar de calmarias que trariam o máximo desconexo mental para junto de mim.
Augustinianamente me faria um louco a trilhar caminhos de mão dupla e a ultrapassar na contra-mão meu corpo moribundo que vaga de espera na ausência dos teus lábios que vejo através do aquário que me puseram para aqui ficar quieto, me enrosco em sonho nos teus cabelos cacheados ou não (não entendo muito de cabelos), afago de olhos cerrados a tua verdade intransitável, deleito na brisa da tua voz imutável, me jogo de queixo erguido no buraco de minha consciência só para confirmar tua existência lá dentro e espero, espero, espero e sempre esperarei um pouco mais por sua vontade de me fazer real.
Te conheço de uma forma tão natural que as raízes do meu instante diriam que complemento minhas palavras com um terço daquilo que por certeza deslumbro em você. Não me diga que é pouco o espaço de tempo já traçado por almas sem limites como as nossas, não delimite o significado do vento que sopra nesses teus cabelos que prendem minha atenção, você pra mim é um instante de outono no mês de Janeiro, um vestígio de verão no meio do inverno, uma brisa que se transforma em tempestade constantemente, um balouçar da água que mais adiante se faz onda a agitar um mar que a muito estava irrequieto, você pro mundo é um forte rebuliço de alegria a invadir casas, arrastar montanhas, derrubar fortes, levantar oprimidos, erguer sonhos, arquitetar planos e desenhar estações.
Me perguntaria no silencio do hospício se houve loucura maior que a de pensar em você e saberia de forma imediata que a única loucura que realmente vale a pena é essa. Saberia também que me fiz louco somente para ter sua visita aqui nesse hospital de débeis que morrem esquecidos pelas paixões que não lhe dão as chances de amá-las, me fiz louco pela paixão que talvez me esqueça como um ontem que nunca chegou.
A salvação para loucura não queremos que venha numa bandeja entregue por uma velha enfermeira que trabalha de coveira, queremos que nossos remédios sejam entregues pelos amores que estão passando por nossas vidas nesse exato momento e não importa se a dose é letal ou não, o que importa é a mão que nos oferece.
É por isso que grito ao vento ruivante que sopra ao teu ouvido palavras como essas sem sentido, pedindo que me encontre naquele que jura não ser mais o mesmo depois de conhecê-la.
Termino agora numa vontade de prosseguir esse pequeno mínimo pedaço de palavras, que garanto não falam nem a metade do que eu seria capaz de falar, afinal de contas o lado do outro ato que se descuida, perde sabendo perder seus impróprios desmotivos inconstantes e suas indefinições tardias, porém nunca se deixa entender que sempre será o mesmo saldo infinito de chances desperdiçadas.


JEFFERSON DOS SANTOS


Iniciado no dia 22/07/2008, encerrado no dia 23/07/2008 ás 17h25min e complementado no dia 24/07/2008 ás 16h48min39s.

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