Iria falar dos teus olhos sem cor, da foto desbotada que guardei, da única imagem que posso preservar viva em minha lembrança, com um sorriso um pouco maior do lado esquerdo, da cabeça deitada num ombro que não consigo imaginar, enfim, eu só queria conseguir falar como nunca mais falei, como nunca mais te falei, como nunca mais falarei.
Meus instintos deturpados, saturados de tanta saudade, tanta vontade de perder-me por aí, pelo motivo maior que acabou, dúvidas e mais dúvidas amontoadas de forma irregular no depósito de ilusões.
Passei tanto tempo temendo por um dia te ver como uma distante ilusão, como um fardo que tenho que carregar, entalado com um suspiro no momento que sem querer encontro aquela velha foto perdida em minha pasta de arquivos e que não tive e nem tenho coragem de deletá-la.
Como são cruéis os novos recados de amor, e como são ainda mais cruéis as suas novas declarações de amor, como são cruéis meus pensamentos ainda mais confusos, como são cruéis os dias que passaram, como são cruéis os homens de boa vontade e os louvores que continuam fazendo, as combinações de tempo, lugar e espaço, as idéias, as novas conversas, a voz que deve ter mudado e se não mudou continua mesmo assim sendo cruel.
Preservei minha conduta inconcebível de tempos atrás, enclausurei e amordacei os pensamentos de usar-me para propósitos não legais, omiti ao mundo minha metade terrorista de te fazer refém, de te trazer por vontade própria para junto de mim, e sei que você não viria, mesmo se você quisesse.
Atirei tantas pedras no telhado do céu, fiz gravuras no portão de entrada, aquele portão imenso pelo qual desejam passar um dia, desenhei você segurando um flor murcha com os cabelos caídos ao ombro, mesmo sabendo que seu cabelo quase não existe mais, fiz duas bolas coloridas no lugar dos olhos, mesmo sabendo que o castanho dos teus olhos são irrepresentáveis, fiz nuvens, um sol amarelo, coloquei arvores ao fundo e voltei do sonho antes mesmo de me desenhar ao teu lado, pois a certeza de sonhar demais só não pode ser pior que a certeza de nunca possuí-la.
(jefferson dos santos)
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