Pohemia

Nesse tempo sem ação
Aqui estou a escrever
Se começo a pensar
Penso logo em você

E assim vou me arriscar
Nessas linhas de agora
Vou mostrar a todo o mundo
Que o amor não vai embora.

Cada dia que se passa
Nessa terra que nasci
Sou obrigado a suportar
A certeza de partir

Permanecer é proibido
Ir embora fui mandado
Nem ao menos me ouviram
Sem razão fui rejeitado

Queriam me redimir
A crer que nada sou
Mas não nasci otário
Vamos ver quem mais errou.

Vou mudar de assunto
Pensar no que é certo
Esquecer, vou conseguir
Vamos ver quem é mais esperto.

Se meus dias serão curtos
Minha vida é bem vivida
Se o fim já esta chegando
Já preparo a despedida

Cansei das mentiras
Das tantas orações
Cansei da insanidade
De crer nas pregações

Nesse mundo tão cruel
Sem paz e sem amores
Viver é mais difícil
Entre lobos e pastores

Confiar eu necessito
Mas me falta convicção
De crer nessas palavras
Acreditar nesse sermão

Boa vida minha senhora
Deixa eu aqui quieto
Um dia até entendo
E deixo o manifesto
Um dia até concordo
E fico mais esperto.

(...)

Vou ganhar muito dinheiro
Com o fim que ta chegando
Vou lançar uma nova igreja
Vou impor todos meus planos

Na porta de lá vai ter
Palhaço e diversão
Vai ter gente do mundo inteiro.
Para ouvir o meu sermão

Vou falar de uma colina
Que eu mesmo vou fazer
E o sermão da montanha
Me fará enriquecer.

Vai ter cálices e mais cálices
Recheados de tantos vinhos
E ninguém no meio do povo
Vai tomar tudo sozinho

A partilha eu vou pregar
Vou mandar cês partilharem
Vamos todos na oferta
Ofertar o que ganharem

Falei o que não devia
Percebi que exagerei
Sempre faço essa besteira
De falar o que pensei.

Na verdade eu me importo
Com a fé dos irmãos
Deixarei todos em paz
Me calar é a solução.

Mas falar não é proibido
Meu direito eu posso usar
Mas percebo que excedi
Me empolguei ao revidar.



Voltarei ao assunto
Pelo qual eu comecei
Vou falar do meu amor
Encerrar logo de uma vez.

Se eu disse que o amor não acaba
Era tudo uma piada
Fiz tudo sem intensão
a verdade esta errada.

O amor foi-se embora
E nada dele ficou
Nem o cheiro em minha roupa
Nem a lembrança do que foi dor

E se a piada foi pesada
Desculpas não vou pedir
Chega de tanta caretice
Não quero mais me repetir.

To saindo pro ultimo trago
Na ultima hora do dia
Se a certeza foi sua arma
A minha não vai ser a alegria.


(fim)

POR ENQUANTO A SÓS

Não, eu não quero nem saber, chega de muito papo, queremos mais contato, muita ação e aprendizado, chega de blá-blá-blá, eu quero me encontrar, te encontrar e enrolar os fios dessa vida.

Não queremos rever os mesmos vídeos que já não fazem a maior graça, nem as revistas coladas, nem as vozes no rádio de pilha.

Hoje queremos a redenção dos filhos bastardos, cantando vivas pela felicidade, derramando nosso suor na avenida que leva o nome de uma santa pastora, quero esquecer dos tormentos que causei e que sofri, ignorar cada motivo para enclausurar-me e largar-me por enquanto nos encantos do canto suave que soa tão baixo quanto eu posso alcançar.


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(jefferson dos santos)

Ao amigo imaginário!

Pelos vales que me tentam, nessa forma mutável e renascente dos ventos matinais.

Pelos caminhos estreitos desse rumo que me tomaram. Nessa sede e nesse temor que caem do alto do mais alto dos céus.

Pelos cantos nos quais já guardei o meu silencio e pelas orações dos infiéis arrependimentos.

Só o resto do sorriso que ainda resta na lembrança que rasteja agonizante com a velha esperança de sobreviver, que mostra ser forte, quão forte será a chama que se apaga e dela só o cheiro sufocante da fumaça continua a sufocar.

Na calçada fria, numa fria e desprezível noite, estavam aqueles dois sentados. Ah, se aqueles dois soubessem que de nada adiantaria estarem ali, sentados ou deitados, esquecidos ou assombrados, afastados ou abraçados, já que a noite é uma só no meio de tantos dias inúteis que só passam por assim dizer.

Louco, tu que andas por onde nunca andei, que não alimenta a fome e nem sacia tua sede, me fala para onde ir, qual rumo, qual desgraça escolher, qual sentimento confiar, qual desejo valerá a pena, quanto tempo custa um sorriso e se com o pouco tempo que tenho posso comprar um pouco mais de tempo.

Louco, nós que gritamos na romaria noturna dos velhos sonhos passados, fala de uma vez por todas os teus segredos da vida, a tua genialidade de nada ter e mesmo assim viver, pois eu, que tudo tive, preferia nunca ter tido, e o tudo que tive prefiro nem pensar em nunca mais ter.

Guarda o lençol do amigo que morre, para que outros débeis felizes possam se aquecer ao teu lado ou se achar melhor ascenda uma chama que por mais breve que seja, fará o brilho apagado ascender na retina cansada do teu sofrimento.
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(jefferson dos santos)

O que eu não devia dizer!

Iria falar dos teus olhos sem cor, da foto desbotada que guardei, da única imagem que posso preservar viva em minha lembrança, com um sorriso um pouco maior do lado esquerdo, da cabeça deitada num ombro que não consigo imaginar, enfim, eu só queria conseguir falar como nunca mais falei, como nunca mais te falei, como nunca mais falarei.

Meus instintos deturpados, saturados de tanta saudade, tanta vontade de perder-me por aí, pelo motivo maior que acabou, dúvidas e mais dúvidas amontoadas de forma irregular no depósito de ilusões.

Passei tanto tempo temendo por um dia te ver como uma distante ilusão, como um fardo que tenho que carregar, entalado com um suspiro no momento que sem querer encontro aquela velha foto perdida em minha pasta de arquivos e que não tive e nem tenho coragem de deletá-la.

Como são cruéis os novos recados de amor, e como são ainda mais cruéis as suas novas declarações de amor, como são cruéis meus pensamentos ainda mais confusos, como são cruéis os dias que passaram, como são cruéis os homens de boa vontade e os louvores que continuam fazendo, as combinações de tempo, lugar e espaço, as idéias, as novas conversas, a voz que deve ter mudado e se não mudou continua mesmo assim sendo cruel.
Preservei minha conduta inconcebível de tempos atrás, enclausurei e amordacei os pensamentos de usar-me para propósitos não legais, omiti ao mundo minha metade terrorista de te fazer refém, de te trazer por vontade própria para junto de mim, e sei que você não viria, mesmo se você quisesse.

Atirei tantas pedras no telhado do céu, fiz gravuras no portão de entrada, aquele portão imenso pelo qual desejam passar um dia, desenhei você segurando um flor murcha com os cabelos caídos ao ombro, mesmo sabendo que seu cabelo quase não existe mais, fiz duas bolas coloridas no lugar dos olhos, mesmo sabendo que o castanho dos teus olhos são irrepresentáveis, fiz nuvens, um sol amarelo, coloquei arvores ao fundo e voltei do sonho antes mesmo de me desenhar ao teu lado, pois a certeza de sonhar demais só não pode ser pior que a certeza de nunca possuí-la.
(jefferson dos santos)