Perdido no seu aquário
Afogado em tua intenção
Trocando ração por salário
Resistindo em vão
Talvez um dia eu faleça
Minhas nadadeiras cessem
Sua atenção eu mereça
E algo lhe interesse
Vou pular fora antes que alguém me devore
Tem peixes aqui muito maiores
Estão tramando meu fim
Querem tirar tudo de mim
Aqui fora parece mais tranqüilo
Pelo menos não vejo tristeza
Vejo pássaros esquisitos
Logo me farão de preza
Antes pretendo me transmutar
Aproveitar minha liberdade
Festejar sem teu altar
Esquecer das vaidades
Fui numa lagoa distante
Lá, já conhecem você.
Falaram coisas absurdas
Mas não disseram o porquê.
Só tenho alguns segundos
É o tempo de chegar ao ninho
Daqui vejo todo o mundo
Um dia vou ser passarinho
Agora serei prato cheio
Serei devorado em breve
Bicos me cortam ao meio
Feliz, que a morte me leve.
Perdido em tua gaiola
Fazendo planos de fuga
Estou a serrar as grades
Correndo da tua loucura
Talvez um dia eu cante
Livre e sem pavor
Fazendo rasantes
Esquecerei até da dor
Vou sair daqui o quanto antes
Me escravizo a cada instante
Porra de alpiste e sementes
Eu quero ser diferente
Aqui fora o vento é mais forte
Sinto o cheiro da liberdade
Vejo crianças ao norte
Com pedras e maldade
Querem me derrubar
Exibir como troféu
Meu corpo padecerá
Deixo de curtir o céu
Enquanto o chão aumenta
Relembro minhas alegrias
Fui feliz e aproveitei
Adeus vida vadia
Acordo num lugar diferente
Numa maca de hospital
Alguém fala na mente
Diz que meu estado é mau
Diz que foi de caça
Diz que foi maldade
Crianças invejosas
Por minha liberdade
O doutor me examina
Me injeta alguma ína
Me põe pra descansar
Diz que volto a voar
A enfermeira me nina
Me faz um carinho
E eu fico rezando
Por pedras no caminho
Não quero sair daqui
Aqui me sinto melhor
Lá fora só tem maldade
Só querem me fazer o pior
É pedra, é pau, é tiro,
Querem me enclausurar
Me roubam a liberdade
Aqui eu posso confiar.
(Jefferson dos Santos)
Nenhum comentário:
Postar um comentário