“Reflexos”

Me perdi por conjecturas tudo o que assim me trouxe esta angustia, versei no alto daquele morro todas as minhas aspirações, desisti de subir mais um pouco e rolei monte a baixo, ao chegar onde cheguei, descobri que meu destino será sempre, voltar aos braços do acaso, me entregar a falsa certeza de que morro pelo o que o morro me fez.
O sol que iluminava minha face sem cobrar por isso, hoje me nega a liberdade de expressão, me obriga a descer ruas descalço, a queimar meus pés em pleno inverno, a destilar minha sede em troca de sabores vis e desesperos infiéis.
Das muitas fotos que me vi preso só me restam aquelas em que não apareço, só me materializam aquelas que me esqueço, aquelas que me devoro no sorriso falso, na tristeza escondida, na revolta obstruída.
Desencanto nas calçadas que tropeço, deixando meu rastro para trás, pegadas que não existiram e nunca se personificarão.
Minha maior vontade foi abortada antes mesmo de reconhecê-la, minhas dores são ruivos sombrios que não exalam odor, sabor nem cor.
Já se fez muito pela vida, já se cantou demais pela varanda dos dias que me regaram, hoje fico rouco em pensar na harmonia do sorriso que neguei, fico exausto quando me vejo com um entusiasmo que não reconheço em mim, fico extasiado quando descubro que sou mais um no mundo a querer ser diferente e quando descubro que essa diferença se tornou uma arma suicida, me ponho a cantar velhas canções sem sentidos.
Por mais que estejam abertas as janelas dos sonhos, restará ainda a certeza da fechadura travado pela ferrugem que esquecemos de evitar, pela corrosão que afetou os trilhos da rua descalça e que agora se mantém inerte em meio ao léu dos sorrisos sublimes, da lucidez extraviada, das angustias maltratadas.
Nas nuvens cinzas que perseguem os dias de sol, não há nada além de simples temperos sutis que trazem sabor a realidade que nos atravessa todo dia o dia inteiro.
Hoje é apenas mais um dia, um dia qualquer em meio a tantas saudades, a tantas erupções, a tantas confusões, a tantas esperanças, a tantas paixões, a tantas ilusões...
Descarregavam-se milhares de desejos no porto mais próximo, mas ninguém se importava com as taxas alfandegárias que hipócritas insistiam em cobrar...



(JEFFERSON DOS SANTOS)

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