Fez-se tarde numa primavera antiga e as roseiras inclinaram-se com o peso das rosas, suas rosas pálidas como o aroma que exalam pela casa, perfumando aos tragos aos mais afortunados e sensíveis a sua exuberante existência. E os arbustos vistosos com suas flores exóticas, seus ramos de um verde esperança e sua presença imóvel, perene e solitária, a denunciar a chegada de uma nova estação para os desavisados.

Então se fez a primeira manhã primaveril e o meu coração não desabrochou, eu vi a luz solar invadir meu gabinete e afastar a noite, revelando as paredes ao redor, demonstrando o tamanho da jaula, onde um animal demente conta cédulas de pétalas de saudade para tentar explicar o motivo do saldo negativo e das horas amargas que não se adoçam e nem tão pouco são breves.

O dia se arrastou devagar e o sol continuou brilhando no alto de sua fúria tempestuosa que tudo ferve e envelheci, como ogivas explosivas de urânio que nem mesmo o furor do tempo consegue deter, as horas objetivas para reduzir a subjetividade e tornarmos prisioneiros do tempo, continuam brincando de estátua com a alvorada, ignorando a solidão do crepúsculo e o poder melancólico da noite que rasga o véu da luz e põe às escuras o outro lado do globo.

Eu só queria a paz e o sorriso dela, um pouco de chuva e o poder de molhar meu rosto nos pingos, antes que esses se tornem ácidos, poder ao menos sair pelado, com o bilau balançando livremente, sem rédeas, imposições e outras banalidades civilizatórias.

Enquanto a primavera vai e o outono vem, o dia e a noite ficam nesse zigue-zague sem fim, vou seguindo sem questionar, sem me rebelar, vou aceitando a domesticação como porta de entrada para a sociedade, uma sociedade fudida e sem futuro, enquanto tudo muda eu vou vendo o mundo mudar, a água ficando escassa, o vinho ficando velho e a saudade me fazer sonhar.


Jefferson santos

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