Veio-me a lembrança que eu mais quis esquecer.

Senti novamente como se a dor tivesse voltado.

Foi igual a quando abri os olhos e vi que estava só.

A vontade de falar como nos velhos tempos.

A ternura rasgada por uma fina navalha de preconceitos.

Tempo em que fazer planos era magnífico, e as horas tinham solidez.

Mas um vazio pairou, uma chama se apagou e todos usaram isso para comprovar suas previsões maquiavélicas e estupidamente encobertas por falsos dogmas que até hoje não consigo aceitar ou ao menos sequer admitir.

E de novo eu percebo que tudo ressurgi dentro de mim, é só remexer nesse armário velho e a coisa toda me envolve impulsivamente sem controle.

As musicas daquele tempo não posso ouvir mais.

Fiz uma lavagem memorável nas lembranças boas, mas não tive coragem de jogá-las fora, a única saída foi guardá-las longe o mais necessário possível.

Toda vez que você lembra eu tento continuar esquecendo, dói em mim e em você também, mas se você não lembrar, quem vai?

Um texto triste e uma certidão de inesquecível é o que tenho no intimo daquele a que não conheço mais.

Não tive muito o que rasgar, e quando uma das poucas lembranças finalmente foi perdida, renasce como uma fênix toda essa quimera largada por motivos medíocres.

Se confuso eu ainda sigo, é somente pelos mesmos problemas que desisti de entender.



(jefferson dos santos)

Lisongildo e a saga dos corneteiros


No meio do mês de janeiro
Ou será que em fevereiro?
Não lembro bem do roteiro,
Doze meses num ano inteiro,
Mas um fato é verdadeiro
Lisongildo o corneteiro
Filho de Ziléu padeiro,
Neto de Mazé leiteiro,
Tataraneto do bairro inteiro
Nasceu num dia primeiro,
Num ultimo e derradeiro,
Toque de um corneteiro.

Sua casa numa colina
Bem no alto de uma favela
Em sua modesta família
Dezesseis para uma panela
Em sua mente fortuita
Sair daquela mazela.

Era feio e introvertido
Realçando o seu valor
Convicto e estarrecido
Era um homem brigador
Baixo, mago e preparado
De apanhar ele cansou.

Desistiu da dura vida
De ganhar pro perdedor
Decidiu fazer bem feito
Evadiu do interior
Foi-se embora para cidade
Para virar trabalhador.

Gildonliso assim chamaram
Aquela alma moribunda
Vinda do norte da peste
Que juntando da nordeste
Para lutar até a morte
E voltar com um pé na bunda.

De servente a engraxate
Mecânico, empeleitero
Sodador, guarda corrupto
Ajudante de paneleiro
Officeboy, secretário
Traficante, açougueiro.

Personal e treinador
Alfaiate, apertador
Meia-boca, pé-de-sola
Balconista e vendedor
Esmoler e tecnólogo
Carteiro e matador.

Escrivão e agiota
Ladrão e corretor
Salafrario de uma figa
Político, mediador
Sanfoneiro, radialista
Taxista, seqüestrador.

Arquiteto, carpinteiro
Ferreiro, maquinista.
Padre e camponês
Carroceiro, economista
Designer, pasteleiro
Trambiqueiro, ambientalista.

Arquivista, faxineiro
Pipoqueiro, aviador
Não há nenhuma área
Na qual não trabalhou
Gildonliso fez de tudo
E de nada ele gostou.

Já pensava num final
Para sua triste condição
Trabalhar sem ter prazer
Ao exercer uma profissão
Faltava algo importante
Que fizesse com paixão.

Decidiu pedir umas férias
Para mente clarear
Queria voltar um homem novo
Pronto pra trabalhar
Mas queria um bom trabalho
Do qual pudesse amar.

Aproveitando uma boa folga
Viajou pro interior
Lá teve festa e algazarra
Que ele até se emocionou
Teve banda e até desfile
E todo mundo se alegrou.

Com o retorno do conterrâneo
Que do sul foi explorador
Aquele dia ficou na história
Vida longa ao vencedor
E levado pela euforia
Lisongildo se encantou.

Tinha trono e uma coroa
Tinha até um fogueteiro
Tinha gente de todo canto
Vieram do mundo inteiro
Homenagens e cerimônias
E uma banda de corneteiros.

Ele mesmo não sabia
O porque de tanta festa
Que povo tolo e sem noção
Dar valor a quem não presta
Pois nada eu consegui
Nenhum centavo me resta.

Mas agora já era tarde
Só podia apreciar
Aquele povo abestalhado
Que nele queriam tocar
Só porque ele, coitado
Do sul conseguiu voltar.

Pois a fama que vem de lá
Não é muito boa não
Quem vai nem sempre volta
E se perde na contramão
Lá é terra de rei caolho
Que perdeu uma das mãos.

Mas a festa continua
E ele não podia parar
Decidiu ficar quieto
E ver a coisa andar
E a festa teve inicio
Sem saber quando acabar.

Houve discurso e puxa-sacos
Amigos interesseiros
Que usaram a sua fama
Por motivo eleitoreiro
Mas o auge de toda festa
Era a banda dos corneteiros.

A cidade se calou
Era a vez dos corneteiros
Todo mundo se ajeitou
Para assistir o show inteiro
E no toque de uma corneta
Veio o som mais verdadeiro.

Aquilo tocou-lhe a alma
Nunca ouviu coisa tão bela
Era um som maravilhoso
De uma melodia singela
E uma lágrima desceu a face
E a enxugou com uma flanela.

Seu coração estava mudando
A cada canção que ele ouvia
Algo em si estava feliz
Explicar já não podia
Já podia até imaginar
Preencher uma vida vazia.

E num toque milagroso
De uma nota bem tocada
De sobressalto ele gritou:
"-Minha vida está mudada
Já fiz muitas coisas boas
Mas nunca me levei a nada

E agora eu sinto em mim
Um amor tão verdadeiro
Vou deixar todas as coisas
Desse mundo rotineiro
E agora serei feliz
Vou virar um corneteiro.

Com o toque de uma corneta
Minha alma foi preenchida
Sinto em mim uma esperança
Vou colorir a minha vida
Preencher o mundo inteiro
Com lindas notas coloridas."

Lisongildo estudou muito
Aprendeu o que precisava
Ganhou o mundo todo
Fazendo o que mais gostava
De tudo que era belo
Era só pedir que ele tocava.

Por muito tempo viveu
Alegrando o mundo inteiro
Incansável e apaixonado
Pelo amor verdadeiro
Essa é a historia de Lisongildo
O maior dos corneteiros.


(Jefferson dos santos)