
Quando ficar sabendo que a vida nunca deixará de ser única e que não poderá voltar atrás para tentar fazer todas as loucuras que pensou em fazer, perdendo oportunidades e evitando errar, sentado num sofá-cama com um controle quebrado do lado, uma TV com no máximo cinco canais abertos e um excluído, com uma coceira gostosa na região dos testículos, com um ar de derrotado (mas como derrotado se você nunca foi à luta?), com uma esposa insuportável que mal consegue atrair sua atenção, lembre-se nesse dia que seu seguro de vida não cobre suicídios e que a melhor saída é recomeçar, mesmo que o tempo pareça menor agora, mesmo que ninguém se importe com a sua capacidade de fazer novas escolhas, ainda se aquele amigo que você tanto odeia passar ao teu lado pilotando um BMW que você não sabe, mas ele não dirá que trabalha num lava-jato e foi entregar o carro de um cliente, até mesmo quando a chuva insistir em cair apenas com o propósito maligno de te molhar, quando um pneu do seu carro velho furar e você perceber que ficou sem o reserva e que também não há borracharia na região, sem contar que a via em que seu carro estar é conhecida por ser uma via de inúmeros assaltos a mão armada seguidos de assassinatos e você pensa que pelo menos sua esposa não será estuprada, já que ninguém teria coragem suficiente de encarar o produto, quando o doutor lhe disser que seu mal não tem cura, quando o cobrador disser que mês que vem ele volta, quando o fornecimento de energia elétrica for suspenso por falta de pagamento, quando o gato de água for descoberto e um processo medonho for aberto contra você, quando a casa precisar de uma reforma, quando você precisar de um tênis novo e barato, quando o tédio bater num sábado a noite e você estiver sem animo algum para se divertir, quando o horário político começar a encher sua noite de perversões, quando uma dor forte apertar do lado e você começar a pensar em quantas pessoas ficariam tristes com sua morte e perceber que para a grande maioria sua morte não passará de um acontecimento corriqueiro, seu seguro funerário demorar a liberar o dinheiro devido a uma clausura do contrato, sua amante ir ao enterro para declarar sua traição, seu caixão sendo largado numa valeta e dentro dele vários boletos em atraso, quando sua alma finalmente se silenciar e a paz enfim chegar, e que a lembrança de que você existiu ressurja quando uma carta de cobrança chegar atrasada avisando que você continuará devendo durante mais algum tempo para que assim sua alma não possa descansar em paz. Talvez aí você acorde de uma soneca num fim de tarde, numa rede macia, numa arejada varanda e se dê conta de que a vida é um vale de vertentes que pode desabar a qualquer momento desde que você não tenha medo de encará-lo.
(jefferson dos santos)
