Esfinge



Entender como os rumos são criados e depois cria-los, ascender essa chama e depois retirar-me, coagir com as adversidades e ainda por cima agir ordinariamente, acho que assim eu consigo me livrar dessa coisa estranha que pulsa meu fluxo sanguíneo e que perece quando tenta pensar.

Hoje eu abri os olhos como sempre fiz, só que com um peso a menos, e não encontrei ao meu lado uma cama vazia, a ausência corroeu o vazio e trouxe em troca um amontoado de anseios, dispostos desordenadamente a cima dos nossos enigmas.

Cansei de decifrar essa sua existência, quanto mais eu procuro entender mais abstraído eu me vejo, vai ser melhor se for do meu jeito?

Não, não vai ser mesmo.

No entanto eu já falei demais, tentando adquirir certas conquistas de maneira não óbvia, esqueci no meio do caminho quem eu era, ao que eu vejo e ao que nós vemos posso ter certeza que não há muitas diferenças, desde que a falta e as ações repressivas, regressivas, depressivas e intuitivas sejam vistas como são e como devem manter-se exauridas.

Eu tento na medida oposta em que não consigo e aniquilado busco um grito na amargura da força esgotada perante a decapitação dos sentidos vitais para que assim você ao menos entenda que eu te amo de uma maneira que não sei por que, mas que não consigo admitir.

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(jefferson dos santos)

Um travesseiro de sonhos


Eu tenho uma vida extra no armário,
Tenho dois quartos de uma dose que vou tomar,
Tenho um amigo que nunca me disse uma palavra,
Tinha inimigos, mas perceberam que sou inofensivo.
Tenho cadarços desamarrados e uma folha alucinógena nas mãos.
Tenho tempo para me perder e perdido tenho tempo para viver.
Tenho uma dor interna, substancial.
Tenho vontades inexpressivas, tenho uma coleção de segredos.
Já os desejos eu deixei de querê-los, mas ainda os tenho.
Tenho em minha mente lembranças raras de noites passadas.
O olhar pela janela que não mostrava nada.
A luz psicodélica que tenho viva em minha mente
E o suspiro inicial que trago antes das decisões.
Tenho medos, os medos me têm.
Tive coragem quando as preces não resolveram,
Tive pressa quando o tempo não vingou.
Tenho uma pedra pequena que trago no bolso.
Não tenho muita coisa nesse instante,
Queria ter a idade dos que nunca vieram a terra.
Agora tenho uma dor, a tenho todos os anos,
Tenho momentos loucos, e uma carga chegando.
Tenho alegria, quando muita euforia, quando pouca alegoria.
Tenho dias solitários em meio ao carnaval do povo.
Tenho a paz que fabrico, tenho a paz que cultivo.
Tenho uma cadela que tem amor pra receber.
Em mim trago muita coisa, mas quantidade enquanto qualidade se torna caridade.
Tenho versos idiotas que esconderei,
Pensamentos avulsos, ilimitados, sinceros.
Tenho um lado vazio, um raio de luz aprisionado,
Uma alegria engarrafada.
Tenho trabalho a fazer, e férias para recusar.
Tenho um piano velho de duas oitavas,
Uma guitarra abandonada igual a tantas,
Uma flauta tristonha e uma gaita enferrujada.
Não tenho empenho, tenho somente vontades.
Poucas certezas, menos ainda sobriedade.
Tenho uma praia que não é só minha,
Tenho liberdade até que eu me sinta livre.
Tenho obrigações metabólicas.
Tenho um espelho fosco, uma voz chateada.
Uma breve lembrança da profundidade,
Mas não tenho um livro negro de magias brancas.
Tenho respostas para poucas perguntas
Tenho sede, e da sede não sei tirar proveito.
Tenho olhos cansados,
E um travesseiro de sonhos.

(Jefferson dos Santos)