DRAMA SEM RETORNO



Estou condenado ao esquecimento, aceitando este fato não preciso aceitar mais nada, cheio de idéias ou confuso, tanto faz se o fim ainda está longe, pelo menos meus filhos não vieram a esse mundo que desprezo, que me leva a algum lugar que seja querido.


Demoram os trens nesta estação fantasma, faz tempo que nada se move, contando com o vento que anda deixando de circular, aumentando minha certeza de solidão, minha angustia de dores inexistentes, minha sede e minha decadência, meu corpo sem prazeres, amando o objeto de minhas paixões, estou louco, sempre soube que estaria um dia.


Jazia o movimento da vida quando brilhavam lágrimas em meus olhos, naquele avião não coube meu amor, que ficou para trás planejando seu futuro, deixando-me aos poucos, até mesmo durante o caminho a frente, com a velocidade de um pássaro em queda livre, atingido por uma pedra de atiradeira, ela foi me esquecendo e fantasiando novas paixões que a destruíssem, que revivessem dentro dela uma dor que eu nunca consegui apagar completamente.


A dor não existe por si só, eu a ressuscitei e dei sabor, um gosto amargo como o sal, o odor acre da vida moderna e fiz dela minha inspiração, a dor em cada linha, em cada tristeza, canalizada para as conquistas que lhe trarão de volta, morena. Quando acordar num certo dia qualquer, poderei estar a sua porta, com um buque de rosas brancas, minha cara de pastel, meu sorriso apaixonado, nas lágrimas de ansiedade, despertando-me das tristezas que nunca apaguei. Você me ouvirá, me verá indo embora sem as rosas, jogará o arranjo na mesa do jantar, olhará pela janela, sentirá a duvida de ter feito a coisa certa e nunca mais nos amaremos.


Onde estou só a morte é conhecida, mesmo nunca morrendo sinto-me suicidado socialmente, sem amigos a vida não deveria prosseguir, na solidão das cartas que eu escrevo, sem as respostas que nunca chegaram pelo correio, estou tecendo um lençol de sonhos, para aquecer-me nos meses de outubro, quando rostos diferentes me desejarão felicitações pelo fim que a cada ano se aproxima mais um pouco.


A quem darei ouvidos no meio da noite?Falando de amor ao falar de dor, quando você dizia que me amava, eu não podia deixar de sentir a maior felicidade que eu já pude desejar, uma mistura de desejo e mágoa, na solidão das horas que caem sobre meu peito que é praia, na paz embriagada da ilusão que colhi, nos dias que sem você chorei, e não pude sequer imaginá-la quando me masturbava.


Tive sua imagem por longos dias, quando os dias viraram anos tudo foi se apagando, o sorriso debochando da minha sina, meu pesar carregando-me pelas ruas vazias desta cidade em atraso, sou apenas um no meio de uma multidão frenética, que se entorpece por amor gerando dor, agonizados pela sede que não saciam e lutando pela vida como animais estúpidos, que entregam até o ultimo pedaço de dignidade em busca da felicidade encapsulada.


Foi loucura ter ido embora no melhor da festa, ter saído no momento em que conquistávamos nossas afinidades, quando eu ouvia sua voz e me tremia por dentro sabendo que nunca a esqueceria, a tristeza maldizendo meu fracasso, fui dos meus sonhos o castrador, troquei amor pela ganância que me cegou, desvinculei-me da alegria quando embarquei naquele terminal dos nautas, num transporte qualquer, que me levaria onde não conhecia, deixando-me pelo caminho,quão longe o suficiente para ser obrigado a esquecê-la.


Trago uma dor chamada esperança, que nunca me deixa em paz, sempre me faz crer que posso viver como eu quero, ao seu lado, com os filhos que você nunca desejou, em família como tolamente eu acreditei que seria o certo, na amplidão dos desejos medíocres, que me levarão por caminhos confusos, repletos de preocupações, obrigações e desilusões numa estrada obscura.


O Sol se põe do lado errado neste lugar, e quando nasce não tem o mesmo brilho das vezes que presenciei na infância...

(jefferson dos santos)

TESTAMENTO

Gostaria de deixar essa lista para todos aqueles a quem ela beneficiará, a todos os amigos e os inimigos aqui citados, os mesmos deverão no dia seguinte ao meu sepultamento encaminhar-se a minha ultima residência e requerer o que lhe foi herdado.

A ordem de recolhimento deverá seguir em ordem alfabética, e ninguém poderá recolher por terceiro, será exigido no ato da entrega a documentação necessária para identificação do beneficiado, sendo que o mesmo não poderá recolher seus bens em outro dia que não seja o reservado para tal.

Deixo claro que ninguém será esquecido ou riscado da lista, ou até mesmo ignorado, se por comprovação o nome não constar na lista, saibam que não foi por esquecimento meu e sim por exclusão consciente e proposital.

Lembro que todos os meus órgãos deverão ser usados para doação, com exceção, claro, do meu coração que deverá ser entregue a mulher que o roubou sem necessariamente seguir qualquer ordem de entrega, pois ela terá todo o direito sobre ele, afinal de contas ela sempre o possuiu quando ainda me encontrava em vida.

Deixo também reservado meus livros, meus escritos, minhas musicas e todo o acervo de minha criação para meus familiares, tudo que por minhas mãos nasceram e passarão a fazer parte desse mundo, deverá ser guardado, queimado, publicado ou escandalizado e desde já estarei em acordo com o fim que a eles será dado.

Se eu não puder fazer um ultimo pedido por motivos mortais, peço desde já que não enterrem meu corpo em nenhum cemitério famoso, se conseguirem uma vaga numa cova em algum lugar do sertão, na mais longínqua cidade, no mais velho cemitério, na cova mais escondida, ou em qualquer lugar que não exija esforços para enclausurar-me dentro de um caixão semi-novo, e se possível que o mesmo seja comprado na mais em conta das funerárias, com preços acessíveis e facilidades de pagamento, não havendo também necessidade de ternos, nem sapatos, pois acreditem se quiserem, depois de morto eu não vou a lugar nenhum.

Entenderei se quiserem chamar um grande publico para celebrarem a despedida do meu corpo, mas não vejo necessidade disso, sendo que a verdadeira despedida já deverá ter sido feita no momento em que meu corpo deixar de funcionar.

Acreditem também que não será preciso gastos desnecessários com qualquer coisa que não seja para o bem de vocês, depois que eu morrer não precisam se preocupar comigo, não sentirei mais nada, não estarei em nenhum outro lugar a não ser nos seus pensamentos, e mesmo assim não serei lembrado sempre, haverá dias sem mim e esses dias serão iguais a todos os outros que procederem ao meu falecimento.

Peço desde já que sejam providenciados músicos especialistas em Beethoven, John Coltrane, Malis Davis, Verdi, Chopin, Wagner, Beatles, Raul Seixas entre outros que constarão numa lista que seguirá em anexo. O objetivo desses músicos será fazer com que o Whisky seja tomado ao som de músicas verdadeiras, e falando em whisky, peço que não se preocupem em comprar Whiskys caros, com sabores marcantes, se possível um bom Whisky barato já serve, pois segundo minha opinião, o melhor de beber um bom Whisky é poder beber vários de segunda.

Não aceito que drogas sejam consumidas em meu velório, já que tenho certeza que haverá um, peço somente que usem coisas naturais, pelo menos no meu enterro, eu sei como é bom fingir ao mundo que tudo vai bem, enganar a si mesmo não será a melhor saída, todavia deverá ser permitido o uso de fumos, qualquer tipo de fumo, e olhe que neste caso as opções são inúmeras. Minha preocupação aqui é somente com amigos que não resistem aos narcóticos, e não havendo a existência de tais substancias nas proximidades, ficará mais fácil passar sem hiatos existenciais.

Como não possuo muitos amigos, somente o suficiente para não viver uma vida solitária, peço encarecidamente que somente os mais próximos sejam convidados, e os que vierem por vontade própria também sejam bem acolhidos, mas aqueles que tiverem ido somente para cumprir tabela, podem ficar na porta mesmo, não quero que me vejam sem forças para enfrentá-los, longe de mim ser visto como um derrotado diante de abutres depreciadores de qualquer sentimento de compaixão, não quero compaixão, os amigos se chorarem certamente será por saudade, por dividas que eu não paguei e por qualquer outro motivo que não seja compaixão, odeio a idéia de ser alvo de pena, quero alegria, sorrisos com piadas sem graça, risos pelas lembranças das loucuras que já fiz e que farei antes de morrer, pois não pretendo morrer agora, agora ainda é cedo e amanhã eu tenho planos loucos de viver em paz.

Esse negócio de chorar em enterro já caiu em desuso, então podem preparar seus fígados para o álcool, afinarem seus violões para a música, aquecerem suas gargantas para as conversas, e enxugar suas lágrimas para não serem desperdiçadas com um evento corriqueiro e certamente inevitável.

Outra coisa que não posso esquecer-me de citar é que evitem conversas fortuitas em meu velório, já é difícil estar morto e ainda por cima ter de ouvir baboseiras sobre futebol, novelas, filmes inexpressíveis e fatos irrelevantes, se não tiver o que dizer prefira ficar em silencio, ouça se for ter de falar besteira.

Creio que não preciso deixar mais nenhum desejo por escrito, se algo faltar, algo que eu ainda não pensei que poderia acontecer ou ser evitado, será publicado a retificação deste documento e liberado seu Download no presente blog.

Seguirá em anexo uma lista contendo os nomes dos beneficiados e seus respectivos bens:

(jefferson dos santos)