Ao som de uma melodia e nada mais importará para esse desejo que martela minha mente, ao luar de uma noite de inverno entre as lembranças dos que esperam preocupados, daquela maneira em que se procura ao relento um pardal pequenino com uma asa quebrada para levá-lo ao fogo da consumação, devorar os milimétricos fios de carne e seus músculos atrofiados ainda pela idade menor, imaginando um coração no lugar de outro, devorar antropofagicamente suas vísceras na intenção de aniquilar esse ódio do mundo. Essa dor ao menos se ameniza quando devoro este belo pássaro que nem alcançou o prazer de sua juventude, que caiu do ninho em seu primeiro vôo e que agora dorme tranqüilo num sono eterno, descansando sua cabeça outrora livre num travesseiro de alfaces e farofa.
Descansam em meu lixo aqueles ossinhos magros que nem a fome saciou, mas esse desejo cruel e antropófago de inverter os papeis e devorar uma vida no lugar de outra não era para ser saciado e sim alimentado, deixando-me uma nova fome para quando encontrar por aí uma nova vitima indefesa, que não tenha escapatória, que não possa mais ser livre, que esteja vulnerável, que possa olhar nos meus olhos e transpassar de sua alma à minha, todo seu pavor, toda sua angustia por perder seu futuro numa tigela de porcelana, num prato colorido, sendo devorado pelas próprias mãos que seqüestraram seu futuro.
Esse episodio me faz lembrar outro, lá eu não era o predador, o topo da cadeia alimentar era ocupado por um ser superior que devorou minha carcaça, meu coração, meu fígado, meu pulmão, meus olhos, meu sorriso, minha paixão, meu medo do passado, meu temor da solidão. Ah! Esse ser cruel que me devorou e foi embora, deixando-me em pedaços num canto da mesa, coberto por moscas e suas larvas penetrantes, que corroeram meu cérebro a procura de informação. De mim vocês não sentem pena, mas de um mísero pássaro com sua cabeça manipulada pelas leis da natureza, que não tinha mais chance de encarar um mundo cruel naquelas condições, vocês sentem pena, e o pior, julgam-me por tamanha frieza e discrepância, ou eu mato ou eu morro, e uma vez morto agora é a minha vez de matar.
Eu confesso que já devorei uma hortaliça inteira, do repolho ao coentro fiz meu genocídio, devorei ferozmente durante horas e horas, e por mais que nunca parasse de devorar cada raiz, eu não me sentia vingado por tal e nem tampouco saciado, no entanto o sangue de uma vitima era a saída para amortecer essa dor que apertava meu prazer contra o muro da insatisfação e resolvi roubar a liberdade de quem não tem nada com isso.
jefferson dos santos