Analgésico suprabiótico

Deveriam logo descobrir remédios para o tédio de sonhar acordado.

Soníferos enlouqüentes e inconseqüentes, capazes de tudo por nada.

Venenos benéficos que ajudem a quem precisa deles e a quem não se interessa por existir.

Não precisam perder tempo com bulas, a necessidade é de se remediar e não de ler.

Mas se insistem nas recomendações, escrevam ao menos poemas de Mário Quintana.

Uma dose para esquecer o passado, duas doses para se sentir otimista, três doses para aprender a ser vencedor, quatro para conseguir acordar, cinco para quando esquecer algo importante, seis para ter coragem de enfrentar o fim do mês, sete para passar em algum exame, oito para reviver o balanço de rede numa infância tão distante, nove para ter aquela velha paisagem tão viva na lembrança, dez para aprender a falar o suficiente, onze para tomar decisões difíceis, doze para dar risadas mais intensas, treze para terminar tarefas intermináveis, quatorze para uma conquista existencial, quinze para não morrer de ciúmes, dezesseis para um amor eterno, dezessete para dor de barriga, dezoito para acalmar os ânimos, dezenove para ficar muito louco e uma cartela inteira para saber que a vida é uma só.

(jefferson dos santos)